sexta-feira, 9 de março de 2012

Sessão de Cinema


Uma vez escrevi aqui sobre uma viagem minha na linha São Paulo – Ponta Grossa, da Expresso Nordeste. Nessa viagem, a parte mais insuportável foi a hora da “Sessão de Cinema” – que, pra minha alegria, não durou muito.

Mais uma vez, a “Sessão” pintou em uma viagem onde eu estava. Desta vez foi na viagem que fiz na linha São Paulo – Rio de Janeiro, da Itapemirim, em novembro de 2010. Fiz esta viagem em um belíssimo Busscar Jum Buss 380.

Cheguei às 6h30 da manhã na Rodoviária do Tietê. Fui ao guichê da Itapemirim comprar a passagem. Olhei para o monitor para escolher o lugar. Surpresa minha: quatro lugares ocupados. Ou seja, tinha o ônibus inteiro pra escolher. Escolhi a poltrona 17 – janela esquerda.

Às 7h00, já dentro do ônibus, e com todos os lanches comprados, vejo que a procura foi enorme na última meia-hora. Não chegou a lotar o carro, mas ao menos preencheram quase todas as janelas. Eu, vendo que tinha um lugar vago em uma poltrona junto à janela mais a frente, mudo de lugar, ficando mais perto da minha bagagem de mão. Tive de deixa-la no bagageiro mas mais a frente da minha poltrona, devido à falta de espaço no bagageiro acima da minha poltrona por causa do espaço do ar condicionado.

No meio da primeira parte da viagem, o amigo motorista liga o monitor. Depois de uns institucionais, começa mais uma “incrível” sessão de cinema. Mais um filme B (de Bem meia-boca). Se não me falhe a memória, o nome do filme era “Apolo XIII” e, pra variar, não conhecia ninguém que lá contracenava. Meu bom humor foi embora, tendo de assistir – ou, no mínimo, ouvir – a esse filme na marra. Mas, como aconteceu em 100% das minhas viagens, logo o DVD enroscou e o filme não continuou. Um passageiro, descontente com o filme, levantou-se e foi ao motorista, avisar que o DVD havia travado. O motorista acabou desligando o monitor.

Na parada, o motorista confessou a mim que recebeu reclamação de gente que queria ver o filme e de gente que não queria. A pessoa que queria ver o filme mais insistente – e acho até que era a única – era uma senhora, loira, que encheu o motorista até dizer chega, reclamando do final abrupto da sessão.

Logo a viagem recomeça. E o filme volta ao monitor, atendendo ao pedido da senhora insistente. Mas, desta vez, o DVD travou logo no começo. A senhora cinéfila levantou-se e foi até a cabina do motorista para, mais uma vez, reclamar que o filme havia parado. Pacientemente, o motorista tentou adiantar o DVD pra ver se o filme seguia. Mas a imagem continuava estática. A senhora, auxiliando-o, narrava a situação da imagem, olhando pelo monitor logo em cima da porta de acesso à cabina – detalhe: o motorista mexia no aparelho ainda na condução do veículo.

Para a senhora cinéfila, a situação estava ficando desesperadora. Tanto que, em uma vã tentativa de fazer o filme prosseguir, a senhora dá umas batidas de leve no monitor, esquecendo-se que o problema era com o disco do DVD, cujo aparelho fica na cabina do motorista.

Por fim, depois de muitas tentativas frustrada – e muita reza brava deste escriba e de outros passageiros que não queriam nem saber do filme – o motorista desistiu. E a senhora cinéfila acabou voltando ao seu lugar, sem ter de ver seu filme.

Acho até legal que as empresas invistam em recursos extras para tornar a viagem mais sossegada e confortável. Mas, convenhamos, essa iniciativa de colocar TV em ônibus, pra mim, é ridícula. Até porque tem gente que gosta e gente que não gosta. Sem falar que ninguém tem escolha do que assistir ou se quer mesmo assistir. E, quando quer, acaba tendo de ver tudo pela metade por causa da falta de condições do aparelho ou do disco do DVD. Sem falar que é uma atividade a mais para o motorista, que não tem de ficar olhando aparelho de DVD enquanto conduz o veículo.

==========
Publicado originalmente na Revista InterBuss nº 23

domingo, 4 de março de 2012

Aline


Em novembro passado estive em Mauá, município da Grande São Paulo, conferindo o primeiro ano de operação da Leblon Transportes, a operadora do lote 2 de linhas de ônibus da cidade.

Nesse dia, fiz uma viagem pelo articulado da linha Zaíra 4, um Marcopolo Gran Viale, chassi Volvo. Nessa viagem, no banco duplo do lado direito do carro, havia uma garota muito bonita sentada. Era jovem, aparentava ter seus 25 anos. Ela estava sentada no banco do corredor. Eu estava do lado oposto ao dela, no banco simples do lado esquerdo – aliás, como nos bancos dos articulados paranaenses, do lado esquerdo há somente bancos simples.

No meio do caminho, subiu um senhor. Passou pela catraca e se sentou ao lado da moça, no banco da janela. Do nada, ele começou a conversar com ela. Era o tipo de pessoa que quando falava, se ouvia longe... Perguntou o nome da moça. Ela, ao contrário, falava tão baixo que nem dava pra escutar.
- Aline! Bonito nome! – respondeu o “Tio”, que continuava – Tem uma música francesa com esse nome. “Aline”.

E ele foi seguindo com sua cantada, repleta de palavras bonitas e tal. Do banco solitário do outro lado esquedo do eu só ouvia e me segurava para não rir das investidas dele.

Durante o trajeto, subiram dois amigos. Esses estavam empolgados, discutindo a política nacional. Ao passar a catraca, eles se sentaram no banco a frente do “Tio” e da Aline. E continuaram a debater a política nacional... Foi aquele festival de opiniões, a maioria delas chavões. E eu só ouvia... Logo, o “Tio” “amigo” da Aline entrou no meio da conversa dos dois.

Durante o papo, um dos “amigos” disse:
- Esse país é maravilhoso. Aqui plantando, tudo dá. Pode-se desperdiçar o quanto quiser que sempre vai ter mais.

Ah, aí eu não aguentei e retruquei:
- Não é assim não. É exatamente por termos tudo que temos de economizar. Essa mentalidade de que temos de gastar tudo o que temos é um dos motivos de nossas mazelas. Se queremos mudar algo por aqui, temos de começar mudando essa cultura do desperdício. Mudando essa mentalidade aqui embaixo, mudamos lá em cima. O que está lá em cima é reflexo do que há aqui embaixo.

Ah, o senhor ficou maluco e começou a discutir com o “Tio” e com o outro “amigo” essa minha idéia. E enquanto eles discutiam, a Aline voltou-se pra mim e disse:
- Concordo com você. Se queremos mudar o país, temos de começar aqui embaixo mesmo.

Ah, depois desse apoio, não discuti mais nada com mais ninguém. Deixei os três “Tios” discutindo suas opiniões e a viagem foi seguiu.

Chegando ao terminal Central de Mauá, o “Tio” “amigo” da Aline ainda tentou pegar o telefone da moça. Mas sem sucesso. Ela desceu do ônibus e sumiu no meio da multidão. Enquanto isso, os três “Tios” continuaram discutindo as suas conclusões a respeito dos problemas brasileiros – que, espero eu, não sejam levados a sério por ninguém.